Neurociência e a Criatividade?!

shutterstock_149933417.jpgCriatividade pode ser definida como a habilidade mental de produzir algo que é novo (original e inesperado) e que é passível de ser aplicado e usado para resolução de problemas (Steinberg & Lubart, 1995). Pode ser também o processo de trazer à consciência algo que estava escondido, capaz de produzir algo novo que soluciona problemas antigos (May, 2011). Ou ainda, um processo de transformação, troca, desenho, descoberta, invenção e produção de algo novo. é desafiar a mente e ter coragem contra nós próprios (Catalão, 2012). A criatividade diz respeito a habilidades como fluência,  flexibilidade, originalidade e pensamento divergente, aplicadas a um processo de invenção sobre algo diferente e nunca tentado. É a forma de criar algo inesperado para algo que já existia ou não (Craft, 2005).

É um facto que existem pessoas que exibem níveis de criatividade maiores que outras. No entanto, a criatividade é algo inerente a qualquer ser humano e não apenas aos artistas. Até porque, segundo Gardner (1993) e Ayan (1997) todas as pessoas nascem criativas, sendo que o pico de criatividade ocorre durante a infância e, à medida as pessoas vão crescendo, a influência dos limites e das regras que são assimiladas pela educação e impostas pela sociedade, acabam por inibir o potencial criativo de tal forma que, quando se atinge os 25 anos de idade, o ser humano, por norma, apenas possui 2% da sua criatividade original (contrastando com os 90% na fase dos 5/6 anos de idade).

Roger Sperry (1981) (Roger Walcot Sperry foi galardoado com um prémio Nobel devido ao seu trabalho sobre as diferentes funções dos hemisférios cerebrais – 1981), ganhou notoriedade pelo seu trabalho que ficou conhecido como “Left Brain, Right Brain Dominance Theory”. De acordo com esta teoria, cada hemisfério cerebral controlaria diferentes tipos de pensamento e funções específicas. Em neurociência, esta teoria foi desenvolvida com base na lateralização das funções cerebrais. Sperry, ao estudar os efeitos da epilepsia, constatou que ao cortar o corpo caloso (estrutura que liga ambos os hemisférios) verificou que as convulsões podiam ser reduzidas ou eliminadas (baseado nos estudos de lobotomia de Egas Moniz). No entanto, os pacientes também experimentaram outros sintomas após o corte do corpo caloso: muitos pacientes eram incapazes de nomear objetos processados pelo hemisfério direito do cérebro mas eram capazes de nomear objetos processados pelo hemisfério esquerdo e, com base nestas observações, Sperry sugeriu que a linguagem era controlada pelo hemisfério esquerdo do cérebro humano.

Com base em pesquisas complementares, a Left Brain, Right Brain Dominance Theory indica que algumas capacidades como o reconhecimento de faces, a expressão de emoções, a leitura de emoções, a música, a cor, as imagens, a intuição ou a criatividade estão associadas ao hemisfério direito enquanto que a linguagem, o pensamento lógico e crítico, o raciocínio e o cálculo matemático são funções inputadas ao hemisfério esquerdo.

Lehrer (2012) também fornece argumentos que suportam a teoria inicialmente prevista pelo neuropsicólogo Roger Sperry, ao remeter para experiências realizadas com técnicas de neuroimagiologia, nas quais, o hemisfério direito se destacava na resolução de quebra-cabeças criativos, uma vez que o lado direito do cérebro apresenta melhor capacidade para vislumbrar ligações ocultas e associar ideias opostas, incongruentes e remotas.

Contudo, Aziz-Zadeh et al., (2012) descobriram que o processo criativo também é suportado e acompanhado por atividade cerebral no hemisfério esquerdo, nomeadamente no córtex parietal posterior, no córtex pré-motor, no córtex pré-frontal dorsolateral e no córtex pré-frontal medial.

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Apesar de todas as evidências neurocientíficas relatadas anteriormente, um dos motivos que pode explicar o porquê de apenas uma minoria da população mundial ser criativa reside no facto de o cérebro estar naturalmente programado para poupar energia. É por essa razão que é frequente afirmar que sair da “zona de conforto”, “procurar novos estímulos” ou “estar em contacto com novas realidades” favorecem a criatividade.

Dietrich (2004) afirma que o córtex pré-frontal tem um contributo decisivo para a integração de experiências conscientes o que permite a combinação de informações o que favorece a criação de novas ideias, porém a busca sucessiva de criatividade, também pode aumentar a propensão de patologias como a esquizofrenia.

Heilman et al., (2003) sugerem que as pessoas altamente criativas se distinguem das restantes em três níveis:

  1. Têm um elevado nível de conhecimento especializado;
  2. Têm capacidade para recorrer ao pensamento divergente, mediado no lobo frontal;
  3. Possuem mecanismos mais e eficazes de modulação de neurotransmissores no lobo frontal.

Em 2005, Alice Flaherty elaborou o modelo dos três fatores que induzem a criatividade com base em investigações através de técnicas de imagiologia cerebral, análise de lesões cerebrais e testes efetuados em pacientes com vícios. Desta forma, Flaherty (2005) descreveu o processo criativo como o resultado da interação entre os lobos frontais, os lobos temporais e os níveis de dopamina no sistema límbico. Os lobos frontais são responsáveis pela geração de ideias enquanto que os lobos temporais trabalham, atualizam e avaliam essas ideias. Flaherty (2005) constatou que anomalias ou lesões no lobo frontal (como a depressão ou a ansiedade) diminuem drasticamente os níveis criativos e os elevados níveis de dopamina aumentam o arousal (“excitação”) e os comportamentos direcionados para objetivos, reduzindo a inibição latente enquanto que elevada atividade no lobo frontal, por norma, inibe o lobo temporal e vice- versa. Segundo Flaherty (2005), estes três fatores conjugados são fundamentais para a produção de ideias.

As últimas descobertas da neurociência sugerem que a criatividade não depende única e exclusivamente de uma região ou de um hemisfério do cérebro. Em vez disso, todo o processo criativo consiste na interação de várias estruturas cerebrais em ambos os hemisférios e da coordenação de vários processos cognitivos e afetivos.

De acordo com Kaufman (2013), três redes cerebrais de grande escala são necessárias para uma compreensão holística da neurociência da criatividade:

  • Rede cerebral do controlo atencional: a rede de controlo da atenção é recrutada quando uma tarefa requer que o foco atencional esteja altamente direcionado para um elemento dessa tarefa. Esta rede está ativa as pessoas estão concentradas num desafio, estão envolvidas na solução de um problema complexo ou quando se encontram num nível de raciocínio que consome elevadas quantidades de energia. A arquitetura neural envolve a comunicação e ciente e confiável entre as regiões lateral (externo) do córtex pré-frontal e a parte traseira (posterior) do lobo parietal.
  • Rede cerebral da imaginação: está envolvida na “construção” de simulações mentais dinâmicas baseadas nas experiências pessoais do passado, como as utilizadas durante as recordações, imaginação do futuro, e também ao imaginar perspetivas alternativas e cenários para situações do presente. A rede da imaginação também está envolvida na cognição social. Por exemplo, quando estamos a imaginar o que alguém está a pensar, esta rede do cérebro está ativa. A rede da imaginação envolve áreas profundas dentro do córtex pré-frontal e do lobo temporal (região medial), juntamente com a comunicação com várias regiões externas e internas do córtex parietal.
  • Rede cerebral da flexibilidade atencional: A rede da flexibilidade atencional monitoriza constantemente os eventos externos e o fluxo interno de consciência  exível e reencaminha essa informação para a rede de controlo atencional ou para a rede da imaginação, dependendo do quão importante é essa informação para a execução da tarefa. Esta rede consiste no córtex cingulado dorsal anterior e na ínsula anterior e é importante para a mudança dinâmica entre o controlo da atenção e da rede de imaginação.

©ICN Agency 2016

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Captura de ecrã 2015-11-3, às 17.11.42

Referências bibliográficas ©ICN Agency 2016

  • Cacioppo, J.T & Gardner, W.L (1999). Emotion. Annual Review of Psychology, 191
  • Hellman, A. (2009). Joel DesGrippes and Marc Gobé: on the emotional brand experience. Rockport Publishers;
  • Knutson, B., Taylor, J., Kaufman, M., Peterson, R. & Glover, G. (2005). Distributed Neural Representation of Expected Value. The Journal of Neuroscience, 25, 19, 4806-4812;
  • Pinkley, R. & Northcraft, G. (1994). Con ict frames of reference: implications for dispute processes and outcomes. Academy of Management Journal, 37(1), 193- 205;
  • Southren AL, Gordon GG, Tochimoto S, Pinzon G, Lane DR, Stypulkowski W. (May 1967). “Mean plasma concentration, metabolic clearance and basal plasma production rates of testosterone in normal young men and women using a constant infusion procedure: e ect of time of day and plasma concentration on the metabolic clearance rate of testosterone”. J. Clin. Endocrinol. Metab. 27 (5): 686–94. DOI:10.1210/jcem-27-5-686. PMID 6025472.

 

 

 

 

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